O encontro de nacionalidades inundou para além da mediática África do Sul... ligeiramente distante, talvez mais a norte, em plena terra de batalhas viking, quatro centenas somadas a umas tantas dezenas de ‘martial artists’ abraçavam-se num Taekwondo que todos sentiram ser o verdadeiro Taekwondo...
Bosei, Dinamarca – GrandMaster Cho’s Sommerfestival 2010...
Nesta recente aventura, a partida precisou ser feita em três grupos... voei, a 27 de junho, conjuntamente com as duas ninjas portuguesas... paródia disparatada que chorava o riso após várias imitações do “Oh Mókótó!”, em simultâneo com uma perfeita simulação ‘old western’, onde uma possível pastilha elástica poderia ser mascada enquanto a inclinação demasiada da cabeça, para trás, sugeria ser a válvula de abertura extrema do maxilar inferior... seguia-se novo disparate sem nexo... a diversão, a alegria por voar em direcção a uma semana previsivelmente fantástica tornou velozes as quatro horas de voo que nos separava...
Chegada ao aeroporto de Copenhaga... um sorriso ‘Pepsodente’, com ar de engatão, mas já sem forças por tanto esperar (foram mesmo seis horas, cacete?), segurava, na primeira fila, dois pequenos papéis de uma agenda com destino cumprido... “Team Corea” e uns caracteres suspeitamente japoneses davam-nos as ‘Boas-Vindas”... saudade após tanto tempo, meu amigo...
Histórias eram contadas, como um resumo alargado dos acontecimentos decorridos entre o momento de separação e o instante de encontro... numa Volkswagen Transporter, com duas portas laterais atrás, seguimos, conduzidos pelo ‘oh chefe?!” (um dos tantos), e acompanhados por mais quatro futuras colegas de treino... cada uma, de sua voz distinta... uma só de partilha - o inglês...
A lua cheia, brilhante e avermelhada... a estrada sem qualquer inclinação no terreno... tão plano, tão ‘estrada fora’...
Noventa quilómetros na ‘preta’, chegada a Bosei... Possivelmente, passadas as zero horas, cujo badalar não se ouvia, o céu permanecia numa gradação de cores como quem ainda anoitece em Portugal...
Dentro da floresta, uma receptiva, calorosa universidade japonesa nos recebia... estacionados, de nós aproximam-se o nosso ‘Meistre’, acompanhado pelos Mestres Nuno Dâmaso e Philippe Montosi (deliciado com a Ginja d’Óbidos, que dele se aproximava), e pelo simpático Jong Moo...
Carregados até aos cotovelos, com tendas à mistura, deslocamo-nos à área destinada ao camping... após 2+2 segundos, duas tendas Quechua verde tropa ficam alinhadas lado a lado, ficando apenas carenciadas de habitantes ‘bronzeados’... Retomando o caminho até à recepção, somos informados de que podemos dormir numa das salas, onde estavam instaladas seis teenagers norueguesas... “Por que não?”, pensámos nós... “Afinal, sempre dá para fugir às melgas”...
Dá-se o regresso ao grande relvado de futebol... mais uma vez, levantamos as pesadas malas com destino àquele quarto que, sete dias depois, aprisionava saudade...
O grande corredor, apenas com luzes de presença, não escuta qualquer som... pela madrugada que ali se sentia, os cinco portugueses (a ‘Team Corea’), arrastavam quatro malas trolley, como se de um exército de cavalaria se aproximasse... De facto, só aconteceu nos cinco primeiros passos... os restantes, conquistaram-se à base de fôlego... Ligadas as luzes, e após aprovação das garotas, cujo sono se encontrava em quinto grau (perceptível pelo ar de redondos ‘tumores’ faciais), entrámos meio que apressadamente... a sensação de ‘quem estava a mais’ àquela hora só nos permitiu estender o colchão e o saco-cama... sono...
Um sol motivador nascido às quatro da madrugada, mostrava um bom início de segunda-feira... Começava um dos melhores estágios de Taekwondo da Europa...
Os treinos, divididos por grupos de graduações (mas com possibilidade de alternar entre eles), permitiam a todos os praticantes um contacto com as várias filosofias, bem como a proximidade para com os diversos métodos de treino dos formadores... Eram eles os Grão-Mestres Cho Woon Sup, Eun Am Hong Chong Ki, Lee Baek Un e Ky-Tu Dang; os Mestres Lee Gye Haeng, Svein Andersstuen, Nuno Dâmaso, Kwak Byung Ho, Jan Terje Sletten, Erling Oppedal, Ole Havmoller, Alan Olsen, Philippe Montosi, Thomas Jensen, Jon Lennart Lobak, Jorgen Berg; e Choi Ji Min.
Os treinos especializavam a Técnica, a Condição Física, as vertentes do Taekwondo... o cansaço pedia urgência por mais forças, um pouco mais ar no pulmão... A piscina gargalhava, dava novo acordar ao corpo ardente... as brincadeiras de qualquer idade chapinhavam em contínuo movimento...
Um apetitoso pequeno-almoço e um revigoroso almoço (que se viriam a tornar tradição), eram compostos por leite e sumo, um pão com manteiga e doce, com fiambre e queijo. Este pequeno manjar reforçava as energias mais que esgotadas durante as várias horas de treino ao longo do dia... o jantar prometia, sempre, petisco... ora grelhados ora kimchi – gastronomia coreana capaz de nos incorporar Hefesto...
A exaustão requeria banhos de descanso, de regresso ao baixo ritmo cardíaco... entre cochilos pela tarde solarenga ou sono profundo durante a escassa madrugada, foram várias as vezes que sentia um arremessar de roupa desarrumada da colega de quarto, numa trajectória quase que acertando em mim... dobok, sapatos... por alívio, não acordei com possíveis toucas em forma de cueca norueguesas...
A sala, transformada em quarto um tanto caótico-cómico, reconhecia os nomes das colegas norueguesas no comprido quadro de giz... solidários e corteses, escrevemos os nossos nomes (seguido dos nomes de código malucos), a nossa escola, a nossa identidade nacional... mínima foi a interacção entre ambas as culturas... olhavam-nos desconfiadas, realidade que abraçava a maioria dos praticantes...
Noite de terça-feira, 29 de Junho... écran gigante na cave da universidade, na zona da movimentada lavandaria... assistimos ao Portugal-Espanha, na companhia de matulões fanáticos por bola e cerveja, cujos apupos, gritos e risos, erguiam um fonema estranho ao ouvido... Perto de nós, um tanto recuado daquele movimento, um putinho louro e de olho azul, semelhante ao do Sexto Sentido, vestia o equipamento português e com um visível orgulho daquelas cores... foi bom observar o sorriso de um garoto feliz, que se divertia torcendo por um país que não era o seu...
O dia seguinte preparou a demonstração das várias escolas presentes... num ensaio anterior de poucos minutos, fértil imaginação de encenação, paródia e marcialidade, conquistámos, perante a imensidão de gente na sala unida, a simpatia, o respeito, o reconhecimento... assistiram, ao vivo, que somos, também, elementos da família do bom Taekwondo... A partir deste momento, eram vários os sorrisos, os simpáticos cumprimentos enquanto caminhávamos por Bosei... No quarto, a demonstração mostrou ser a acendalha para as nossas colegas de quarto meterem conversa connosco, conversarmos, desenharmos, rirmos por piadas, parvoices... gargalhadas apenas de cansaço, sem motivo...
O companheirismo entre as novas amizades que nasciam entre as tantas centenas de pessoas... curioso ver várias culturas, linhas de rosto distintas, concebidas a partir dos fenómenos geográficos de cada local, reunidas, a evoluirem, a divertirem-se, a respeitarem-se...
A aventura adensava-se... estando envolvidos pela floresta, num dos passeios carregámos as máquinas fotográficas e disparávamos para dentro daquela beleza natural... os “mil metros” que deixaram de o ser, as peripécias da caminhada... o regresso à partida que culminava no trampolim... saltos, quedas, torcer de barrigas, nos “porras” que imperavam a estabilidade do balanço... as gargalhadas mais que lágrimas... respiros sem fôlego...
Último dia, últimos momentos... sexta-feira, final de tarde-noite, a cerimónia solene de encerramento... as velas representando cada cinto negro, a música oriental de meditação... a união e a certeza de que aqueles dias fantásticos findavam dali a várias horas... De seguida, a ‘disco-night’ tornou-se o apogeu das relações humanas... a dança, os espectáculos de quem era o melhor artista, o convívio com aquela tanta gente, o espírito de grupo, a paz em harmonia do momento que se prolongava desde o início, o querer registar na memória biológica e virtual a efectividade de que tudo aconteceu...
Porque Portugal ainda é um país pequenino, onde os carapaus se armam em atletas de corrida... naquele convívio internacional, todos foram pessoas simples, humildes, tratando o outro como um igual... desde Grão-Mestres a Campeões do Mundo... No Taekwondo - arte marcial - ninguém compete entre si... todos pertencem à mesma família que se entre-ajuda, por forma a que todos consigam evoluir através dos ensinamentos uns dos outros... Um cinto negro é sempre um cinto branco... Portugal é, ainda, terrivelmente pequeno...
A partida, sábado... as despedidas após o pequeno almoço... a promessa de um possivel ‘até breve’... Chegados a Copenhaga, o exercício na procura do ‘Bed&Breakfast’ competia com a sessão de treinos dos dias anteriores... percorrendo a cidade, a procura dos souvenirs e, à noite, de madrugada, a discussão ‘à filme’ entre o dono do hostel e uma japonesa que não lhe pagava a renda... e nós a roncar, a roncar, a roncar...
Porque foi das semanas mais fantásticas em aventura de grupo... obrigado por essa viagem a uma nova descoberta de vocês... de mim...
GM Cho Woon Sup (Coreia/Noruega)... obrigado pela calorosa recepção, oportunidade, simpatia e marcialidade...
GM Lee (Coreia)... fiquei deliciado com a alegria com que ensinava nos treinos... um perfeito ‘desenho animado fofo’ com umas grandes e doces bochechas com um risco horizontal em cada olho...
GM Ky-Tu Dang (Vietname/Dinamarca)... pela simplicidade e humanismo que demonstrou... pela perfeição técnica e quase irreal...
M. Montosi (França)... obrigado pela especificidade de treinos, pela amizade... a ginja não foi esquecida...
M. Nuno Dâmaso (Suíça/Portugal)... um amigo que consideramos ser especial... um Mestre exemplar que inspira em nós confiança, coragem... vontade de vencer os nossos obstáculos... obrigado por cada filosofia de cada treino...
‘Jasão’ (Noruega)... apesar da tua ligeira ‘pinta’ foste parte importante dos nossos momentos mitológicos... por pouco não levaste um ‘Yop’ na tromba... “já lá estava!!” :) ...
‘Obikwelu aka Mr Eko’... gostaste da nossa equipa… caminhavas connosco... “Quem é o Mr. Eko?”... “É o Obiwelu, Meistre!” :) ...
‘Jesus’ (Irão)... por teres um estilo fabuloso de quem só quer paz, dança, vida e Taekwondo... a tua bicicleta, bem ao estilo de uma Harley Davidson marcou-me... os meus choques impossibilitaram-me de continuar a festa na tua ‘Jerusalém’...
‘Sopas’ (Coreia)... pelos momentos de riso quando era pronunciada a tua alcunha...
Stefanos, (Grécia)... óptimos momentos no culminar da semana...
Laurent (Suíça)... por estares sempre empenhado em qualquer situação...
Jong (Coreia/França)... por já estares habituado a mais malucos... bem vindo a Peniche...
Albana e Mikki (Itália e Suíça)... por estarem sempre presentes com a equipa...
‘Trucas’ (Suíça)... por seres o ‘Gilu’ de lá... completamente doido...
‘Rúben 2’ (México?)... és um tipo porreiro... compreensivo, empenhado...
As nossas colegas de quarto... Charlotte, Jeanette, Danielle, Kristine, Mari, Alette... obrigado por nos aturarem... abraçámos culturas, partilhámos cansaço...
Aos “Oh chefe?!”... foram muitos os rostos que ocuparam este lugar... no entanto, todos eles tiveram o seu papel fundamental...
É possível que me esqueça de tantos outros que nos foram importantes... não é desprezo, apenas memória falível que agora sinto...
Às míticas telhas... “Aquelas ali?!!... até com o dedo do pé!... eram umas cinquenta!!” :) ...
Aos de sempre... que caminham comigo...
Márcia... por te teres integrado bem numa seita maluca, mas muito tua amiga...
Tatiana... és a cocas, uma sapa muito atrevida com quem adorei estar durante tantos dias...
Fábio... és um ‘broda’... obrigado pelo crescimento ao longo destes dez últimos anos...
‘Meistre’... por ser o bom ‘pai marcial’ com quem todos, no Taekwondo, deveriam ter o privilégio de aprender, de crescer... obrigado...
Dinamarca... chegaste devagar... pouco tempo aqui ficaste... “Dream pink”...
rúben leitão 150710